Em uma unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), cada procedimento exige cuidado e precisão. Bebês prematuros ou recém-nascidos que passam por cirurgias delicadas muitas vezes enfrentam várias punções, longos períodos de internação e uma recuperação complexa.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto Luar, sigla para Laserterapia e Ultrassonografia na Assistência ao Recém-Nascido. A iniciativa é fomentada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB), na Faculdade de Ceilândia.
A pesquisa é coordenada pela professora Laiane Medeiros Ribeiro, doutora em ciências, docente do programa de pós-graduação em enfermagem da UnB e especialista em neonatologia, enfermagem pediátrica, tecnologia e inovação.
“O projeto Luar nasceu para oferecer alternativas menos invasivas, mais seguras e mais humanizadas para bebês extremamente vulneráveis”, explica Laiane. “A proposta sempre foi aproximar ciência, tecnologia e assistência clínica para melhorar o cuidado neonatal.”
Luz que ajuda na cicatrização
Uma das frentes do estudo avalia o uso da laserterapia de baixa intensidade. A técnica utiliza feixes de luz com baixa potência para estimular a recuperação dos tecidos.
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Diferente do laser cirúrgico, usado para corte ou cauterização, esse tipo de laser não é invasivo. Ele atua estimulando processos celulares ligados à cicatrização.
No projeto, a tecnologia foi aplicada em recém-nascidos submetidos a cirurgias relacionadas a condições graves, como gastrosquise, quando parte do intestino se desenvolve fora do abdômen do bebê; obstrução intestinal; enterocolite, uma inflamação grave do intestino; e anomalias anorretais, alterações congênitas na formação do ânus e do reto.
A luz usada no tratamento é absorvida pelas células e ajuda a ativar processos importantes para a recuperação, como o aumento da energia celular, a redução da inflamação, a formação de novos vasos sanguíneos e a produção de colágeno.
Na prática, isso pode significar menos dor, menos inchaço e uma recuperação mais rápida.
“A ferida inflama menos, cicatriza mais rápido e o bebê passa por menos desconforto”, afirma Laiane.
Os resultados iniciais indicam que a laserterapia pode ajudar a reduzir complicações no pós-operatório e diminuir o tempo de internação. Em UTIs neonatais, isso é especialmente importante, já que cada dia a mais no hospital pode representar novos riscos para o recém-nascido.
Ultrassom dá mais precisão ao procedimento
Outra frente do projeto Luar investiga o uso da ultrassonografia durante a inserção do cateter central de inserção periférica, conhecido como PICC.
Esse cateter é usado em recém-nascidos em estado grave para aplicação de medicamentos, fluidos e nutrição parenteral por períodos prolongados. Apesar de essencial, o procedimento pode ser difícil, principalmente em bebês prematuros, que têm vasos sanguíneos muito pequenos e frágeis.
Tradicionalmente, a inserção do cateter é feita por tentativa de punção, com confirmação posterior por exame de imagem. O problema é que várias tentativas podem aumentar a dor, o estresse e o risco de complicações.
Com o uso da ultrassonografia à beira-leito, a equipe consegue visualizar os vasos em tempo real e acompanhar a passagem do cateter durante o procedimento.
Além de reduzir parte da exposição à radiação, o método pode diminuir riscos como hematomas, tromboses, infiltrações e falhas no posicionamento do cateter.
“A ultrassonografia permite maior precisão, reduz a necessidade de repetidas punções e ajuda a identificar complicações precocemente”, ressalta a pesquisadora.
Tecnologia a serviço do cuidado neonatal
Os estudos foram realizados em UTIs neonatais de hospitais de referência do Distrito Federal. Os pesquisadores acompanharam recém-nascidos durante o período de internação.
No caso da laserterapia, as aplicações foram feitas no pós-operatório imediato, com monitoramento constante dos sinais vitais e registro fotográfico da evolução das feridas.
Já no estudo com ultrassonografia, os profissionais acompanharam inserções de PICC com avaliação em tempo real.
“Nosso objetivo nunca foi apenas incorporar tecnologia, mas tornar o cuidado mais seguro, preciso e menos doloroso para os recém-nascidos”, resume Laiane Ribeiro.
Enfermagem como protagonista
O projeto também destaca o papel da enfermagem na adoção de novas tecnologias em saúde. Os enfermeiros envolvidos passaram por treinamentos teóricos e práticos para o uso da laserterapia e da ultrassonografia aplicada ao PICC.
A equipe também desenvolveu protocolos clínicos, materiais educativos e fluxos de atendimento específicos para o ambiente neonatal.
Segundo Laiane, iniciativas como essa aproximam a universidade dos serviços de saúde e fortalecem práticas baseadas em evidências científicas.
“A tecnologia, aliada ao cuidado humanizado e à liderança da enfermagem, pode transformar a neonatologia”, pontua. “Quando universidade, serviço de saúde e instituições de fomento trabalham juntas, conseguimos gerar impacto real na assistência.”
Além da aplicação clínica, o projeto Luar contribuiu para a formação de mestres, doutores, especialistas e estudantes de graduação envolvidos nas pesquisas. A iniciativa também fortaleceu a produção científica e a enfermagem baseada em evidências no Distrito Federal.
Apoio à ciência
Os recursos do edital permitiram a compra dos equipamentos usados nos estudos, como aparelhos de laserterapia e ultrassom. Também possibilitaram a aquisição de insumos, a realização de treinamentos especializados e o desenvolvimento de protocolos clínicos voltados ao cuidado neonatal.
“Sem o fomento da FAPDF, a pesquisa não teria sido realizada na qualidade que conseguimos desenvolver”, enfatiza Laiane. “Esse apoio tornou possível transformar uma ideia em evidência científica com potencial de melhorar e até salvar vidas.”
Os resultados vêm sendo apresentados em congressos científicos e publicados em revistas especializadas, ampliando o debate sobre inovação tecnológica aplicada à neonatologia.
A equipe avalia que ainda há espaço para ampliar o uso dessas tecnologias na assistência neonatal brasileira. Entre os próximos passos estão estudos com amostras maiores, consolidação de protocolos clínicos e expansão das aplicações para outras condições neonatais.
“O caminho ainda é longo, mas os resultados mostram que vale a pena investir em ciência aplicada ao cuidado neonatal”, conclui a coordenadora do projeto. “Tecnologias bem-utilizadas podem reduzir sofrimento, melhorar desfechos clínicos e transformar a experiência desses bebês e de suas famílias.”
Com informações da FAPDF
